GMAT3 cai 15%: Grupo Mateus lucra R$ 324 mi, mas margens apertam
Quando Grupo Mateus divulgou seu balanço do quarto trimestre de 2025 na noite de quarta-feira (18), o mercado financeiro reagiu com uma queda brusca que deixou investidores perplexos. A ação da companhia, negociada sob o ticker GMAT3 na B3, despencou 15,26% na sessão seguinte, caindo para R$ 4,11. O motivo? Apesar de um lucro líquido robusto de R$ 324,3 milhões, os números revelaram uma compressão preocupante nas margens operacionais, alimentando temores sobre a sustentabilidade dos resultados em meio a custos crescentes.
Aqui está a pegadinha: enquanto a receita disparou, a eficiência operacional recuou. É como correr mais rápido numa esteira, mas gastando muito mais energia para manter o ritmo. Para entender por que o mercado puniu a empresa mesmo com o lucro subindo 2,2% em relação ao mesmo período de 2024, precisamos olhar além da linha de fundo e examinar as pressões estruturais que afetam o varejo no Nordeste brasileiro.
O paradoxo dos resultados: Receita alta, margem baixa
Os dados apresentados pelo grupo pintam um quadro complexo. De um lado, temos um crescimento agressivo no faturamento. A receita líquida saltou 20,9%, atingindo impressionantes R$ 10,55 bilhões no último trimestre. Isso reflete a estratégia de expansão física e a maturação das lojas já abertas, conforme destacado pela ADVFN. No ano inteiro de 2025, foram inauguradas 22 novas unidades de varejo alimentar, incluindo atacarejos, supermercados e hipermercados.
No entanto, o outro lado da moeda é menos brilhante. O Ebitda (lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização) caiu 3,1%, fechando em R$ 612,5 milhões. Essa divergência entre receita e rentabilidade operacional sinaliza que cada real vendido está custando mais caro para ser gerado. Analistas apontam que a combinação de insumos mais caros e uma concorrência acirrada no setor forçou o grupo a absorver parte desses custos, espremendo sua margem de lucro bruto.
- Lucro Líquido: R$ 324,3 milhões (+2,2% YoY)
- Ebitda: R$ 612,5 milhões (-3,1% YoY)
- Receita Líquida: R$ 10,55 bilhões (+20,9% YoY)
- Geração de Caixa: R$ 379,1 milhões
A sombra do erro contábil de R$ 1,1 bilhão
Mas não foi apenas o desempenho operacional recente que abalou a confiança dos investidores. Há um fantasma pairando sobre a governança corporativa do grupo. Um vídeo viralizado no YouTube detalhou um erro massivo de R$ 1,1 bilhão na valorização de estoques identificado no balanço patrimonial de 2024. Segundo relatos, falhas nos cálculos do custo médio das mercadorias vendidas (CMMV) mascararam prejuízos operacionais reais.
O impacto desse ajuste foi severo. O patrimônio líquido da empresa recuou cerca de R$ 695 milhões após a correção, e o valor de mercado evaporou em aproximadamente R$ 1,9 bilhão naquela época. Embora esse evento tenha ocorrido no ano anterior, ele expôs vulnerabilidades "amadoras" na estrutura de controle interno, segundo críticos do mercado. A gestão precária dos inventários, com inventários físicos realizados de forma esporádica, levantou questões sérias sobre a confiabilidade dos dados financeiros históricos.
Reestruturação operacional: Foco no alimento, saída do eletro
Em resposta às pressões, o Grupo Mateus parece estar recalibrando seu modelo de negócios. Enquanto expande agressivamente no segmento de alimentos — encerrando 2025 com 302 operações ativas —, a empresa está reduzindo sua exposição ao segmento de eletroeletrônicos, conhecido internamente como "Eletro".
Entre outubro e dezembro de 2025, foram fechados 13 pontos de venda dedicados a eletrônicos. Somando-se aos demais meses, o total chega a 28 operações encerradas no ano. Além disso, departamentos de Eletro dentro de 20 lojas de varejo alimentar também foram desativados. Essa decisão estratégica visa eliminar áreas de menor rentabilidade e maior complexidade logística, concentrando recursos onde a demanda é mais resiliente: o básico, o supermercado.
Reação do mercado e perspectivas futuras
A queda de 15,26% nas ações GMAT3 na quinta-feira (19) não foi um movimento isolado. A pressão vendedora começou logo na abertura, com os papéis cotados a R$ 4,55, e se intensificou durante o dia, tocando a mínima de R$ 4,10. Investidores institucionais parecem ter interpretado a compressão de margens como um sinal de alerta vermelho, especialmente considerando o histórico recente de erros contábeis.
O desafio agora é provar que a geração de caixa de R$ 379,1 milhões no trimestre é sustentável sem depender de expansões agressivas que diluem a eficiência. O mercado exigirá transparência absoluta nos próximos relatórios. Se o grupo conseguir estabilizar as margens no primeiro semestre de 2026 e demonstrar melhor controle sobre seus estoques, a confiança pode retornar. Caso contrário, a volatilidade deve continuar sendo a norma.
Perguntas Frequentes
Por que as ações do Grupo Mateus caíram se o lucro subiu?
O mercado focou na qualidade do lucro e não apenas no volume. Embora o lucro líquido tenha crescido 2,2%, o Ebitda caiu 3,1%, indicando que a empresa precisou trabalhar mais (vender mais) para ganhar menos em termos de eficiência operacional. Além disso, o histórico recente de erros contábeis grandes aumentou a aversão ao risco entre os investidores.
O que foi o erro de R$ 1,1 bilhão mencionado?
Tratava-se de um equívoco na contabilização dos estoques no balanço de 2024, causado por falhas no cálculo do custo das mercadorias vendidas. Esse erro inflacionou artificialmente o valor dos ativos da empresa. A correção resultou em uma redução significativa do patrimônio líquido e perda de valor de mercado, expondo fragilidades na governança interna.
O Grupo Mateus está saindo do negócio de eletrônicos?
A empresa está reduzindo drasticamente sua presença nesse segmento. Em 2025, fechou 28 lojas específicas de eletroeletrônicos e removeu departamentos de eletrônicos de 20 supermercados. A estratégia parece ser focar recursos no core business de alimentação, que apresenta maior resiliência e fluxo de caixa constante.
Qual é o impacto da queda de margens no futuro?
Se a compressão de margens persistir devido a custos elevados e concorrência, a capacidade do grupo de financiar novas expansões ou pagar dividendos pode ficar comprometida. Os investidores estão observando atentamente se a receita crescente continuará sendo acompanhada por uma deterioração da rentabilidade operacional nos próximos trimestres.
Como a expansão de lojas afetou os resultados?
A abertura de 22 novas lojas em 2025 impulsionou a receita líquida em 20,9%. No entanto, lojas novas geralmente têm custos operacionais mais altos inicialmente e levam tempo para atingir a plena produtividade. Isso contribuiu para o recuo no Ebitda, pois os ganhos de escala ainda não compensaram totalmente os investimentos e custos de operação das novas unidades.